Neste livro, Assis Benevenuto convida, pela primeira vez, o leitor a entrar em sua casa. Ao contrário do que se possa inicialmente imaginar, esse lar não é habitado apenas pela fulgurância que o título indica. O clarão que nós lemos nos poemas e que grita exclamativo “me fura e fecha!” parece querer se lançar para além do vermelho da paixão e da dor; segue rumo à flor, e canta, junto a uma linhagem de outros seletos poetas, o obstinado refrão:
The rose is rose is rose.Os versos se apresentam, assim, não com o brilho lustroso das palavras poéticas que se desejam brilhantes, lapidadas e luzentes. Há, aqui, muito verbo de rua, de ocasião,
fait-divers lado a lado com versos irônicos, prenhes de melancolia de longa ruminação.
Se o tema da casa assombra e persegue o poeta, é este também o responsável pela construção dos versos mais potentes e inquietantes dessa obra. A casa não é una, é polimorfa: é a porteira da vida e ao mesmo tempo caduca, inútil. À triste e desoladora imobilidade dos lares, o poeta responde com a memória e errância da linguagem.
Temos, então, um livro cujo autor está no cimo e entre as palavras. Nada ingênuo, às vezes um pouco sentimental, ele sabe que mesmo mudando de endereço, será sempre a poesia que abrirá a porta e dirá: “Estamos indo sempre para a casa”.
Sabrina Sedlmayer
Inverno 2009
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* Sabrina Sedlmayer é Doutora em Literatura Comparada, escritora e professora da Universidade Federal de Minas Gearais (UFMG).